Relembrar o legado de Simone de Beauvoir
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Neste dia, em 1908, nascia Simone de Beauvoir, ativista pelos direitos das mulheres, existencialista e escritora. Relembrar o seu legado nos dias de hoje é crucial num mundo constantemente dividido por conflitos de género e desigualdades sociais.
É inevitável referir que, para além da carreira intelectual de Simone, ela manteve uma relação aberta (não monogâmica) com Sartre para o resto da vida, relação essa que moldou a sua personalidade e a sua evolução literária, uma vez que ambos liam e comentavam as obras um do outro.
Porém, Simone de Beauvoir foi sobretudo uma ativista pela igualdade dos direitos da mulher, tendo reinventado o conceito de feminismo na sua época. A sua principal obra, O Segundo Sexo, desvenda o mito criado de que a mulher é um ser diferente — “o Outro” — e de que a sua condição é determinada biologicamente. Este livro foi uma expressão audaz do que era um verdadeiro tabu à época. Simone teve a capacidade de explorar o corpo e a condição feminina, abrindo caminho para a emancipação e a liberdade social das mulheres.
Para além disso, Simone foi uma das mulheres que assinou o Manifesto das 343, no qual declarava ter realizado um aborto e exigia a legalização do aborto em França. Tal veio a acontecer em 1975, em grande parte graças a este movimento. Assim, as mulheres puderam reivindicar um direito fundamental, que continua ainda hoje em debate, sobretudo nos Estados Unidos da América.
O que nele me agradava principalmente era o facto de ser capaz de sorrir com distanciamento sobre as coisas e as pessoas, ao mesmo tempo que se entregava intensamente a tudo aquilo a que se dedicava, aos seus prazeres e às suas amizades. Foi com esta frase que Simone de Beauvoir avaliou Albert Camus no primeiro encontro que teve com ele. Ela acreditava que o amor verdadeiro permitiria a liberdade do indivíduo. Era amorosa e experimentou relações com pessoas do mesmo género, incluindo pessoas mais novas do que ela, como aconteceu com algumas das suas alunas — um episódio extremamente controverso e hoje amplamente criticado.
Simone de Beauvoir é uma das maiores figuras do feminismo e uma defensora incontornável dos direitos das mulheres, com um legado que merece ser reconhecido e analisado de forma crítica. As suas ações e reflexões contribuíram para a construção de uma vida feminina mais justa, para a normalização do debate em torno de diferentes modelos de relação e para a defesa do direito ao aborto seguro. O seu pensamento continua a inspirar reflexões essenciais num mundo que ainda enfrenta profundas desigualdades de género.
Se a 'questão feminina' é tão absurda é porque a arrogância masculina a transformou numa 'querela'- Simone de Beauvoir
