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Recuperei um desenho da ilustradora Sara-a-Dias, datado de 2020, que retrata Donald Trump a ser silenciado, recorrendo a um trocadilho com a sigla MAGA, numa clara alusão à ideia de que Trump precisa de ser silenciado, devido à sua incapacidade de parar de falar. Concordo absolutamente com essa leitura, sobretudo tendo em conta que, nesse mesmo ano, Trump reagiu de forma infantil e irresponsável à derrota nas eleições presidenciais, culminando num apelo direto à subversão da ordem democrática, materializado no ataque ao Capitólio, um dos episódios mais graves da história recente dos EUA.
Embora este retrato seja de 2020, revela-se hoje surpreendentemente atual. A diferença é que, em vez de estarmos a tentar silenciá-lo, é ele quem tenta silenciar os outros, movido por uma loucura narcisista e autoritária que se tem vindo a acentuar.
“Iremos parar imediatamente toda a censura governamental e trazer de volta a liberdade de expressão” ou “sob a minha liderança, restauraremos uma justiça justa, igualitária e imparcial sob a regra constitucional” foram algumas das frases inspiradoras proferidas por Trump na tomada de posse do seu segundo mandato, frequentemente acompanhadas de discursos com traços racistas e divisivos. Estas declarações envelheceram, uma vez que se multiplicam os casos de ataques à democracia, nomeadamente no que diz respeito à liberdade de expressão e à pluralidade política, promovidos ou incentivados pelo próprio presidente, numa autêntica caça às bruxas da era moderna.
Um dos episódios mais chocantes foi o assassinato de Charlie Kirk, influencer conservador e antiaborto. Embora a sua morte tenha sido trágica e condenável, mais condenável foi a instrumentalização política feita por Trump a seguir. Por se tratar de um aliado e amigo, Trump apressou-se a atribuir a responsabilidade à “esquerda radical”, classificando o movimento Antifa como terrorista, ao mesmo tempo que promovia medidas restritivas contra a liberdade de expressão de todos os que se lhe opunham — exatamente o oposto do que havia prometido na tomada de posse.
A Universidade de Harvard foi outro alvo da sua insanidade política. Uma das instituições académicas mais prestigiadas do mundo viu vistos de estudantes imigrantes cancelados e fundos congelados, sob a alegação de não combater adequadamente o antissemitismo. Os media também têm estado sob constante ataque por parte da administração MAGA. Publicações como o New York Times, a BBC, o Wall Street Journal, a CNN e a Time tornaram-se alvos frequentes por se oporem às políticas da Casa Branca. O New York Times chegou mesmo a ser alvo de uma tentativa de processo judicial por parte do magnata americano.
Do mesmo modo, os humoristas — tradicionalmente responsáveis por satirizar a política e criticar figuras públicas — viram esses direitos ameaçados. Stephen Colbert e Jimmy Kimmel tiveram os seus programas cancelados (embora Kimmel tenha regressado posteriormente), um cenário que parece saído de uma realidade paralela, mas que aponta perigosamente para o caminho de uma ditadura, precisamente num país que se proclama como pilar da democracia.
A verdade é que Donald Trump chegou ao segundo mandato com uma vontade desmedida de se afirmar como ditador, ainda que de forma primitiva. No meio desta tentativa de silenciar a opinião pública que lhe é desfavorável, surgem episódios tão patéticos quanto perturbadores: escutas em que afirma gostar de “meninas mais pequenas”, fotografias ao lado de Jeffrey Epstein,alteração de documentos históricos, encontros com líderes internacionais transformados em meros desfiles de auto-promoção, vídeos gerados por inteligência artificial com conteúdos fictícios, e amizades com figuras, no mínimo, polémicas.
Não há dúvidas de que Donald Trump é um dos piores presidentes da história dos Estados Unidos. O seu poder financeiro, aliado às relações próximas com magnatas e elites económicas, permite-lhe disseminar o ódio através das redes sociais, condicionar a liberdade de expressão e, sobretudo, corroer os alicerces da democracia — algo que parecia impensável num país como os EUA.